Os outros pupilos enfezados do tio Ron

Duplas de campeões de Ron Dennis

Além de todo o sucesso que conseguiu para a McLaren depois de comprá-la (sem tirar um centavo do bolso) na década de 80, Ron Dennis merece cumprimentos pela forma esportiva com que sempre tratou sua dupla de pilotos e por nunca deixar de contratar a melhor dupla disponível, sempre buscando formar times inesquecíveis no seu tempo.

Desde lá, foi costume colocar em seus carros dois campeões comprovados ou jovens talentos de potencial enorme ao lado dos detentores de títulos. A última encarnação desses dreamteams é formada por Lewis Hamilton e Fernando Alonso. Apesar de normalmente funcionarem, essas uniões de grandes pilotos também foram responsáveis pelo surgimento de algumas das maiores rivalidades e inimizades no circo da F1. Resumo elas a seguir, em ordem cronológica.

Niki Lauda X Alain Prost – 1984 e 1985

Prost e Lauda no grid de Brands HatchNo corner esquerdo, o desafiante, medindo pouco mais de metro e meio e vergando seu inconfundível nariz torto, Alain Prost. À direita, o bi-campeão mundial, que sobreviveu a um acidente que comprometeu 70% do seus pulmões e foi contratado a peso de ouro pela McLaren em 1981.

Vale a lembrança de que o futuro “Professor” tinha recém deixado o posto de jovem promessa e, na época, era conhecido por ser impulsivo, deixando escapar o título de 1983 por erros bobos, quando defendia as cores da Renault.

A temporada começou tranqüila para Ron Dennis, já que Prost encontrou mais rapidamente a “mão do carro” deixando Lauda em um distante segundo plano. Os McLaren TAG-Porsche daquele ano só não foram mais dominantes do que os McLaren Honda de 88, mais um motivo para serenidade na equipe.

Brands-Hatch foi um divisor de águas. Lauda tinha achado um acerto ao seu gosto e começava a diminuir a diferença de pontos. Depois de liderar com folga, o carro de Prost apareceu atravessado na pista, uma quebra da transmissão tirava os pontos do francês, deixando a vitória no colo do austríaco. O saldo foi, mesmo com 7 vitórias contra 5 do companheiro, Prost amargou um vice-campeonato, por meio ponto.

Na temporada de 85 Lauda já encaminhava sua aposentadoria e o caminho ficou aberto para Prost ganhar o seu primeiro título.

Alain Prost X Keke Rosberg – 1986

Keke e Alain no pódio

Narizinho faturou em 85 e Ron trouxe para lhe fazer companhia o primeiro bigode a ganhar um título mundial, Keke Rosberg. O finlandês, campeão de 82, sempre foi reconhecido por sua velocidade, mas nunca foi um piloto muito cerebral.

Para complicar a vida de Rosberg, naquele ano foram adotadas regras mais rígidas para o tamanho dos tanques de combustível. Como não era permitido o reabastecimento, más notícias para Keke.

Nos treinos a disputa da McLaren até foi parelha, nas corridas, porém, o roteiro costumava se repetir. Rosberg partia desabalado para a frente, virando aparentemente mais rápido que o francês, começava a diminuir drasticamente o seu ritmo depois da metade da prova e, com poucas voltas para o fim, encostava sem um sopro de gasolina sequer. Enquanto isso, o francês começava a ganhar sua fama de professor, mantendo um bom ritmo e abanando para o furioso finlandês rumo ao seu segundo título.

Ayrton Senna X Alain Prost – 1988 e 1989

Senna lidera Prost na HungriaA rivalidade mais “sangrenta” da história da F1 foi firmada quando Ron Dennis inventou de colocar ao lado do seu multicampeão francês a revelação das temporadas anteriores, Ayrton Senna. No princípio todos tentaram manter as aparências, o “companheirismo”.

Como o McLaren Honda liderava com folga qualquer outro projeto daquela temporada, parecia possível sustentar os dois egos. Depois do GP de Ímola, entretanto, a guerra estava declarada. Ali, os dois pilotos tinham um acordo de não atacar o líder na primeira curva, mas interpretações diferentes causaram a primeira richa entre Senna e Prost.

O brasileiro largava na pole, mas patinou e perdeu a liderança para o francês. O problema foi que, enquanto Senna colocou em sua cabeça que a primeira curva era a “quase-reta” Tamburello, Prost soltou fumaça pelas ventas quando viu o companheiro colocar do seu lado no grampo seguinte e retomar a ponta.

O professor deve ter se indignado mais ainda no Canadá, quando, depois de largar na frente, viu Senna passar em condições iguais no grampo que leva à reta principal. Ainda assim, a guerra não sairia de graça para o brasileiro recém-chegado e Prost devolveria na mesma moeda no Grande Prêmio da França.

Em vão, porém. Na última corrida, uma recuperação épica de Senna rendeu-lhe o primeiro título. Ainda que Prost tenha terminado o campeonato com mais pontos, a regra de descartes da época deixou o campeonato com Senna, que venceu mais vezes.

Foi então que o Professor começou a mexer suas engrenagens. Reclamou com o diretor da Honda, Soichiro Honda, que Senna estaria recebendo motores melhores, fez intriga com o presidente da FIA (seu amigo) Jean Marie Balestre e, ainda que esportivamente ele e Senna tenham disputado um belo campeonato, em Suzuka foi o maestro de uma armação tremenda para ganhar o campeonato.

Jogou o carro em cima de Senna na aproximação da chicane que leva à reta principal e ainda deixou o carro engrenado, para que os fiscais tivessem dificuldade de removê-lo. Senna, desesperado, saiu cantando pneus da caixa de brita, com o aerofólio dianteiro quebrado e tendo apenas 9 voltas para passar Alessandro Nannini, que havia herdado a liderança.

A duas voltas do final, conseguiu a ultrapassagem, no mesmo ponto em que fora traído por Prost, e cruzou a linha de chegada vibrando. Balestre não deixou que subisse ao pódio, desclassificando-o, por ter “cortado caminho” na chicane. Para as estatísticas, ficou no 1 a 1, mas o gostinho amargo na boca insinua algo diferente…

Kimi Raikkonen X Juan Pablo Montoya – 2005 e 2006

Dupla explosiva de 2005Demorou até o Ron achar uma nova dupla “espetada” como as da década de 80, mas em 2005 a briga prometia na McLaren. O inglês juntou na mesma equipe os 2 principais desafiantes de Michael Schumacher na temporada de 2003.

Enquanto que o finlandês Raikkonen era conhecido pela cara fechada e as poucas palavras, o colombiano Montoya era um ícone pelo seu temperamento enfezado e sua boca mais ativa que os neurônios. A dupla ficou melhor no papel do que na prática, porém…

Mesmo com Raikkonen disputando o título até as últimas etapas com Fernando Alonso, o visível descontentamento de Montoya com as quebras mecânicas e por não se achar até depois da metade com o novo carro, esgotou parte do esforço da equipe. Ainda assim, em alguns momentos a parceria funcionou, como na Bélgica, onde o colombiano teve um dia inspirado e liderou a maior parte da prova, até deixar o companheiro tomar a ponta, pouco antes de ser atropelado pelo retardatário Antônio Pizzonia, abandonando a corrida.

Em 2006, Ron perdeu o controle da situação, coisa rara… A falta de performance da McLaren se somou a um acidente de moto que tirou Montoya de algumas provas da temporada. Para piorar, o clima entre os pilotos ficou tenso e surgiram provocações. Pouco antes do GP dos Estados Unidos, Montoya adotou um novo capacete que tinha a inscrição “Ice melter” (derretedor de gelo), um ataque óbvio ao companheiro de equipe.

Coincidentemente, foi em Indianápolis que o colombiano fez uma barbeiragem que tirou ambos os McLaren da corrida na primeira curva, num grande engavetamento. Poucos dias depois era anunciada a sua recisão de contrato, seu lugar sendo tomado pelos pilotos de teste da McLaren por revezamento.


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~ por Bernardo Bercht em junho 23, 2007.

4 Respostas to “Os outros pupilos enfezados do tio Ron”

  1. A idéia do post é sensacional e o texto tá ótimo como sempre! Mandou muito bem, Bernardo!
    E a dupla Raikkonen e Montoya não está no nível das demais, indiscutivelmente.
    Abs

  2. Excelente, mas mesmo excelente!

  3. De fato, o texto tem qualidade profissional e está perfeito!
    Parabéns!!

  4. Montoya caiu de moto em 2005, nao em 2006.

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