Diamante bruto

Gilles Villeneuve 1979

Acompanhei apenas em registros a breve trajetória de Gilles Villeneuve na Fórmula 1, mas percorrendo o material que já se produziu sobre esse piloto canadense, é absurdo negar seu talento e o impacto de sua perda para a F1. Gilles era brutalmente veloz. Sua forma de pilotagem não envolvia controlar o carro nos seus limites, era esquecer de toda e qualquer barreira do equipamento e forçá-lo a contornar a curva nas trajetórias mais mirabolantes, independentemente de suas limitações.

No começo essa abordagem arrojada rendeu a conotação de destruidor de carros para Gilles. Na sua estréia, com a McLaren, em 1977, fez tempos competitivos (incluindo a 5ª melhor volta da prova), mas rodou 8 vezes durante o final de semana, terminando a prova em 9º. Mesmo assim, impressionou Enzo Ferrari, que o trouxe para substituir Lauda na Scuderia.

Nas primeiras corridas a combinação de seu estilo entusiasmado com a inexperiência resultou em inúmeros acidentes e abandonos. Em sua segunda prova pela Ferrari, no Japão, o canadense tentou uma ultrapassagem estabanada sobre a Tyrrell de Ronnie Peterson, freando muito além do “Deus me livre”. Rodaram, bateram rodas e Gilles foi catapultado sobre a barreira de proteção, matando 2 torcedores que assistiam a prova em lugar proibído. Essa propensão a acidentes gerou inclusive manifestações dos tifosi para que fosse substituído na Scuderia, mas Enzo Ferrari acreditou no jovem canadense e manteve sua posição na equipe.

Gilles é catapultado pela Tyrrell de Peterson

Em apenas duas temporadas Villeneuve teve carro para ser campeão: 1979 e 1982. O destino, porém, conspirou para que, na primeira, fosse 2º piloto de Jody Scheckter após uma temporada ruim em 78; e que na outra, a desobediência de seu companheiro, Didier Pironi, às ordens da Ferrari levasse a um frenesi desesperado por melhores tempos que tiraria a vida do canadense, aos 32 anos.

Parece justiça poética ao seu estilo que suas performances mais impressionantes tenham acontecido nas condições mais difíceis. A seguir listo as que considero mais impressionantes:

Watkins Glens – 1979
11 segundos mais rápido que qualquer um na chuva

Scheckter, seu companheiro de equipe entrou no cockpit e se preparava para sair à pista em um dos treinos do Grande Prêmio dos Estados Unidos quando recebeu uma folha com as voltas de Villeneuve: “Fiquei paralizado de medo! Pensei que sairia para brigar para ser o mais rápido… Aí olhei o tempo de Gilles e… Ainda não sei como é possível… Onze segundos!” Ficou mesmo no segundo lugar.

Zandvoort – 1979
Perder tempo não era opção, mesmo que o carro se desmanchasse

Depois de uma ultrapassagem fantástica em Alan Jones, usando a trajetória externa da pista, Gilles começou a perder performance com um furo lento no pneu traseiro, esquerdo. Preferiu continuar na pista e logo o pneu, sem ar, saiu do aro tirando o canadense da pista. Um breve momento em que parecia ponderar o que fazer e logo ele engatava a ré e voltava para a pista, determinado.

Ao contrário de outros pilotos, que retornariam vagarosamente aos boxes, para preservar a suspensão, Gilles empregou um ritmo alucinante para um carro naquelas condições e, ao chegar nos boxes, a Ferrari era um verdadeiro triciclo. Insistiu que os mecânicos deveriam substituir a roda quebrada, mas foi enfim convencido de que o carro estava além de qualquer reparo.

Dijon – 1979
Batalha com Arnoux, em Dijon 1979

Seu estilo guerreiro e teimoso não permitiu que a Renault comemorasse sua primeira vitória com uma dobradinha no circuito francês. Não era pela vitória, mas Gilles resolveu lutar com todas as armas por aquele 2º lugar, sem levar em conta a superioridade do Renault de Arnoux naquela pista. O resultado foi a melhor briga por posição que a Fórmula 1 já assistiu. O vídeo conta melhor do que qualquer narrativa…

Montreal – 1981
Frente destru�da da Ferrari em Montreal

Debaixo de um temporal vinha aquela Ferrari no terceiro lugar, atravessando nas curvas do circuito canadense. Havia algo de esquisito com a carenagem, porém. A asa dianteira tinha sido torcida em direção à cabeça do piloto pela pressão do ar e agora obstruia quase toda a sua visão da pista!

A Ferrari continuava mantendo o ritmo porém e, quando os fiscais de prova pensavam em mostrar a bandeira preta para aquele alucinado que insistia em seguir em frente, Gilles balançou a frente do carro no grampo, freiou mais forte que o normal e num estalo o aerofólio saiu voando, terminou a prova sem trocar a peça num incrível 3º lugar.

 


6 vitórias/ 14 pódios / 2 poles / vice-campeão de 1979
O único a realmente guiar com a faca nos dentes…
18/01/1950 – 08/05/1982

 

Isso sim é sa�da de curva!

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~ por Bernardo Bercht em maio 7, 2007.

2 Respostas to “Diamante bruto”

  1. Excelente! Eu não faria melhor… Aliás, tu já viste o que fiz, certo?

  2. Pelo menos esta matéria eu já li. Excelente. Bernardo, muito bom! Perfeita a escolha dos episódios mais impressionantes! O material tá ótimo! Eu também não tive a oportunidade de acompanhar a trajetória do Gilles, mas vendo matérias assim já dá pra pegar o gostinho de como seria assistir a esse gênio fazendo o que ele fez.
    Parabéns pelo trabalho
    Abs

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