Spa – Parte 1 – Na era romântica da Fórmula 1

Já começo a contagem regressiva para a volta da F1 ao fantástico circuito de Spa com uma série sobre a história desse templo automobilístico

Stirling Moss e seu Maserati em 1956

A pequena cidade de Spa está na história das corridas de carro desde o início do século XX. Em 1902 a localidade definiu aquele que é considerado o primeiro circuito fechado para provas automotores. Naqueles anos o mais comum eram as provas de cidade a cidade, cruzando estradas em diferentes condições e ainda sob o risco de encontrar tráfico civil e uma infinidade de outros perigos. As voltas dessa primeira disputa percorriam 53 milhas das estradinhas que envolviam a região.

Essa configuração interrompia um número muito grande de vias e trazia problemas óbvios de logística para o idealizador, Jules de Thier. Para resolver essas questões, em 1924, ele traçou uma nova rota para as disputas de Grand Prix. A nova pista tinha 15 quilômetros de extensão e hospedaria corridas de alto nível até o final da década de 70.

Traçados antigo e moderno de Spa

Os seus primeiros 3 quilômetros ficaram tão marcados por exigir o talento dos pilotos e produzir corridas fantásticas que nenhuma remodelação posterior ousou alterar o carisma dessa seqüência de curvas. Do final da volta, no grampo da La Source, passando pela inesquecível e exasperante Eau Rouge e chegando à Les Coumbes após a Radillion, os novos arquitetos sempre procuraram preservar as características principais, sem atingir a alma do complexo de curvas que ainda hoje é o mais famoso da F1.

Largada da primeira prova de F1 em SpaLargada da primeira prova

Spa-Francorchamps foi palco da 5ª etapa da estréia do circuito mundial de Grandes Prêmios, a Fórmula 1. Como as datas das corridas ainda eram muito próximas, apenas 14 carros estavam prontos para percorrer o traçado belga de alta velocidade. Mesmo assim, as principais forças estavam representadas. As Alfa-Romeo dominando a primeira fila com Giuseppe Farina, Juan Manuel Fangio e Luigi Fagiolli e as Ferrari seguindo logo atrás, com Alberto Ascari na quarta posição e Luigi Villoresi em sexto. Participavam ainda sete Talbots-Lago, franceses; um Maserati; e um Alta, britânico.

Fangio e seu Alfa 158 contornando a La Source
Fangio venceu o primeiro Grand Prix em Spa

Um impressionante Raymond Sommer conseguiu dividir as Ferrari no grid, com o quinto tempo. Enquanto que os modelos italianos precisavam parar nos boxes para abastecer seus motores beberrões, Sommer manteve-se à frente das Ferrari na pista e, com as paradas dos Alfa, assumiu a liderança. Uma zebra inimaginável. No entanto, o motor do seu bólido, cujo projeto datava de antes da II Guerra, não resistiu e Fangio reassumiu a liderança para vencer a prova com 14 segundos de vantagem para Fagiolli.

Pilotos se equilibram sobre os pneus de bicicleta ao
fazer o contorno da Eau Rouge na chuva

Largada úmida de 1956

Nessa década, a disputa mais inesquecível aconteceu em 1956. Spa foi palco de um confronto de gigantes entre as Lancia-Ferrari e os Maserati. Fangio marcou a pole- position para a Ferrari, 5 segundos mais veloz que qualquer outro piloto, prevendo um grande domínio na corrida. Completando a primeira fila estavam os britânicos Stirling Moss, na Maserati e Peter Collins com outra Ferrari. Um pouco atrás vinham os protótipos ingleses da Vanwall, com Harry Schell, em 6º e Maurice Trintignant, em 7º.

Fangio vacilou na largada sob chuva e perdeu 4 posições, deixando a liderança para Moss, seguido de Castelotti, Peter Collins e Jean Behra. Num ritmo impressionante, o argentino precisou trabalhar três voltas para retomar a vice-liderança e duas passagens mais tarde apareceu à frente de Moss. A pista começou a secar e a vantagem cresceu ainda mais.

Na volta seguinte, Moss viveu momentos de terror na tomada da Eau Rouge. Uma das rodas dianteiras do seu Maserati se soltou quando fazia a tangência da primeira perna e ele perdeu imediatamente o controle, em alta-velocidade. Por algum acaso do destino, não bateu em nada, percorrendo 100 metros rodopiando em três rodas e depois se arrastando pelos 15 quilômetros até o pit.

Como as regras da época permitiam, o britânico pegou o carro do piloto de apoio, Cesare Perdisa, voltando possuído para a prova. Fez a melhor volta na corrida, 5 segundos mais rápido do que o tempo de qualificação. Logo assumiu a 5ª colocação, passando Schell e herdou o quarto posto quando Fangio parou com a transmissão quebrada.

Peter Collins acabou como vencedor do movimentado GP
Peter Collins com a Lancia-Ferrari

Peter Collins assumiu a liderança, com uma vantagem de 1 minuto para o companheiro de Ferrari, Paul Frere e 9 minutos de diferença para Moss, que passou Behra para conseguir um lugar no pódio. Behra teve problemas com o motor e desabou na última volta para sétimo e assim Schell herdou uma boa 4ª posição para a Vanwall.

Resumo em vídeo da corrida de 56

Nesses primeiro anos não foram registradas tragédias nas rápidas curvas da pista belga. Talvez pela performance “modesta” dos monopostos ainda no início da sua escalada de desempenho do pós-guerra, mas também por muita sorte (como na pirueta de Moss). Com o aumento exponencial das velocidades de curva, o mesmo Moss sofreria um grave acidente em 1960 e dois jovens pilotos britânicos (Alan Stacey e Chris Bristow) perderiam a vida no traçado cada vez mais desafiador.

A pista se manteve inalterada até 1978, entretanto, pois os pilotos “clássicos” não acreditavam na “segurança ativa” que depois seria propagada por Jackie Stewart. Além disso, patrocinadores e organizadores exigiam que a prova se mantivesse no calendário. Em parte foi bom, pois novas disputas históricas ocorreram, mas muitas vidas se perderam no decorrer dessa duas décadas.

Eau Rouge nos anos 50

 

 

 

Continua na fase heróica (1960-1980)

 

 

 

 

 

 

 

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~ por Bernardo Bercht em maio 6, 2007.

Uma resposta to “Spa – Parte 1 – Na era romântica da Fórmula 1”

  1. […] Faltando pouco mais de um mês para o retorno da F1, está na hora da continuação! (Primeira parte/clique aqui) […]

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